Valmor Beux, a voz mansa calada pela violência

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Alceu A. Sperança – escritor alceusperanca@ig.com.br

O vereador Valmor Beux nasceu em Tapera, então distrito de Carazinho (RS), em 20 de novembro de 1940, filho de Ângelo e Odila Beux. A família veio para a região em 1945, proveniente de Lajes (SC).

A decisão de seus familiares de se fixarem em Cascavel ocorreu por mero acaso. O irmão mais velho de Valmor, Zilmar, na verdade, tinha a intenção de se dirigir a Foz do Iguaçu. Quando passava pela pequena vila de Cascavel, o caminhão apresentou problemas mecânicos. A solução foi pernoitar no lugarejo até ser socorrido. Foi o que bastou para se encantar com aquele projeto de cidade e resolver ficar.

Mais tarde, Zilmar chamou os parentes, um dos quais Valmor Beux, que em 1954, aos 14 anos, já lecionava no Rio Grande do Sul. Dez anos depois ele também vinha para Cascavel, acompanhando a tendência da família.

Logo ao chegar, trazendo no currículo cursos de contabilidade, matemática, estatística, mecanografia e física, Beux iniciou uma presença comunitária sempre ativa, não se limitando apenas a lecionar, mas também a intervir nos assuntos que mais preocupavam a sociedade regional na época, atuando politicamente no partido de resistência à ditadura, o MDB, e também junto aos estudantes e suas famílias.

Sua primeira conquista se deu ao participar do movimento para a criação do Ginásio Estadual, hoje Colégio Wilson Joffre, no qual passou a lecionar em 1966. Também participou da fundação dos colégios Marilis Pirotelli e Polivalente.

Na vida política, a trajetória começou em 1968, quando se elegeu vereador pela primeira vez, com 671 votos. Em 1972, abdicou de uma reeleição segura para favorecer ao colega Paulo Marques, que iniciaria naquele momento uma carreira meteórica, vindo a se tornar o segundo vereador mais votado, secretário municipal da Educação e Cultura de Cascavel e deputado federal.

Ainda assim, a Justiça Eleitoral computou para Valmor 54 votos, obtidos sem campanha alguma. Eram principalmente de um grupo de estudantes do Wilson Joffre que não se conformavam com a retirada de seu nome da chapa de candidatos.

Em 1976, Beux foi eleito para o segundo mandato com 763 votos. Já pelo PMDB, em 1982, reelegeu-se com 1.860 votos.

1982 foi um ano interessante. A geografia oestina profundamente afetada com a formação do lago de Itaipu, começavam as obras do trecho ferroviário Guarapuava–Cascavel. Um ano de muita chuva e muita seca. E como a ditadura se recusou a criar a Unioeste, que deveria ser federal, o Estado começou a criá-la nesse ano.

Entrava em operação a fábrica de rações da Coopavel, mas os agricultores estavam furiosos com a deprimente situação da triticultura e o acumpliciamento dos governantes com as transnacionais dos grãos.

Uma das particularidades da legislatura eleita em 1982 foram as três mulheres de sua composição: Marlise da Cruz, Egídia Covatti e Teresinha Depubel. Marlise teve quase 4 mil votos, cinco vezes mais que o PT e o PDT somados.

Foi uma legislatura que deixou saudades também porque o estimado professor Valmor Beux, o segundo mais votado nas eleições, seria assassinado no futuro. Seu colega Álvaro Palma, eleito na mesma legislatura, seria igualmente assassinado por empregados. Coisa impressionante, pois em 1982 Cascavel já parecia “civilizada”…

Também participou, apenas para reforçar a chapa do PMDB, das eleições de 1988 e 1992, mas já sem interesse em permanecer no primeiro plano da vida pública, deixando de repetir as extraordinárias votações que lhe deram os mandatos exercidos. Nunca postulou candidaturas à Assembleia Legislativa, à Câmara Federal ou à Prefeitura.

Quando a morte foi surpreendê-lo, no dia 6 de agosto de 1998, aos 57 anos, seus maiores prazeres eram cultivar amigos e rosas. Ele tombou assassinado por um arrombador de residências.

Muito calmo, voz mansa e pausada, o professor e vereador Valmor Beux, no entanto, tinha força e ímpeto. Foi um dos primeiros empresários da noite cascavelense, com sua inesquecível casa Labirinto, numa época em que inexistiam os videoquês e os músicos profissionais eram valorizados.

Ele mesmo tirava para fora os bagunceiros da noite. Para impor a disciplina aos alunos mais rebeldes do Colégio Wilson Joffre, não hesitava sequer em enfrentá-los “no braço”, saindo-se muito bem no pugilismo, sem jamais temer enfrentar alguém “lá fora”.

 

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