‘Belas, recatadas e do lar’: em Cascavel elas rasgam o verbo, o rótulo e a revista

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A mais recente recente pataquada da Revista Veja repercutiu muito mal entre as mulheres e homens com consciência de gênero. Tentando impor seu ideal minimalista de rotular a sociedade brasileira, a publicação mirou a nós mulheres e o rótulo veio através da esposa do vice-presidente, Michel Temer, Marcela Temer como a mulher ideal: “Bela, recatada e ‘do lar’. A frase virou meme e repercutiu em todo o Brasil.

Sem demérito das mulheres que escolhem cuidar da casa por opção, desde que isso seja uma escolha livre, sem pressão e sem o deboche do marido ou da sociedade que costuma dizer que as donas de casa “não fazem nada”.
O rótulo incomodou Tays, Ana Cláudia, Mayara, Joyce, Cássia, Rejane, Sil e Mary. Cascavelenses corajosas que reviraram seus álbuns de foto e até se expuseram no Facebook para mostrar quão longe estão do modelo perfeito de mulher de político brasileiro desenhado pela Veja.

O blog selecionou um grupo de mulheres de Cascavel que fizeram esse protesto e as questionou porque decidiram se mostrar em uma imagem que foge aos ‘padrões’ e ainda mais em uma cidade ainda conservadora como Cascavel.
Fortes, engajadas com suas famílias, com seus estudos, com seu futuro, com causas sociais. ‘Do lar’, da rua, do trabalho, da luta.

Diversas respostas, profissões, idades, perfis sociais e gostos mas algo em comum: um misto de crítica e bom humor, elas rasgaram o rótulo e se pudessem, certamente, rasgariam a revista. Para toda ação, uma reação. A internet não perdoa e não se cala, e nós mulheres também não.

 

Sil

Sil Vailões. Bela, cantora, professora, mãe, dona-de-casa.

O que é ser bela?
Sou uma mulher meio gordinha, já tive filho e meu corpo caiu. Não tenho dinheiro e nem vontade para ficar fazendo cirurgias plásticas e atender a um padrão de beleza que nunca fez minha cabeça. Minha prioridade sempre foi ler, estudar, conhecer novas possibilidades, discutir ideias. Não vou nem à academia. Sei que fazer exercícios faz bem para o corpo, mas não fico nessa pilha porque, sinceramente, não me importo com o que os outros pensam sobre minha barriga mole ou meus peitos que já não são mais tão durinhos. Visto o que gosto, tenho as tatuagens que amo pelo corpo, gosto de cores escuras e roupas mais compridas. Quando estou a fim de mostrar a barriga, mostro! Mesmo que eu saiba que ela não é durinha. E daí? O que é ser bela? A beleza, para mim, está justamente em ser quem você é, sem se preocupar com os padrões que nos são impostos.

O que é ser recatada?
Nem sei o que quer dizer isso! Desde sempre fui louca, escrachada, falo palavrão, sento do jeito que quero, não aceito que me digam o que falar, o que vestir, com quem me relacionar, que horas devo parar de beber ou o que preciso considerar para ser uma mulher. Sou gritona, fiasquenta, sincera, falo o que penso, enfrento e não tenho medo de defender minhas ideias. Vou às boates, entro no banheiro masculino quando está vazio e a fila do feminino está cheia. Chuto porta de banheiro de festa quando a galera se enrola demais. Bebo e curto meu som. Sei lá o que é ser recatada…

O que é ser do lar?
Não moro com meu filho, pois o pai tem mais condições de criá-lo e, sinceramente, a única dificuldade que encontrei em relação a isso foi o fato de as pessoas ficarem me julgando e dizendo que não amo meu filho o suficiente, já que não abri mão da minha carreira, de estudar, de ter namorados, de cantar na noite, para estar com meu filho. Não sou o padrão de mãe normal, mas sei que meu filho me ama e o amo demais. Todos os momentos que passo com ele são incríveis, educo e pego no pé, cobro posturas e ele me respeita.
Trabalho em dois empregos, sou professora, batalho cada centavo do meu salário, todos os dias. Tenho sim jornada tripla, pois tenho uma casa para dar conta, mas adoro fazer meus trabalhos de casa e cuidar do que é meu.
Aprendi a faxinar a casa muito cedo com a minha mãe, que era faxineira. Com nove anos de idade, fazia todo o serviço da casa, lavava, passava, limpava tudo, até vidros. Sempre considerei o trabalho doméstico algo muito importante e sou chatíssima com o que é meu. Minha prioridade é o conforto, corro o dia todo para me manter, sou o que quero, o que sonhava quando tinha 10 anos.

Sou independente, sustento-me sozinha desde os 17. Sou professora, feminista, luto por um mundo melhor todo dia. Encho o saco dos amigos por causa dos discursos machistas, das “piadas” que já não têm mais graça. Sou assim e não vou mudar. Tenho vergonha do que sou? JAMAIS. Não tenho nada contra quem seja recatada, bela e do lar, nos padrões, mas eu escolhi ser o que eu quisesse e não o que me mandam ser! Sou feliz!

 

 

joyce

Joyce Colaço. Bela, acadêmica de Letras, militante em causas feministas e da juventude.

“Postei a foto como forma de chacota a reportagem da Veja, ja que a reportagem reforça os estereótipos da dados para a “mulher ideal”. Muitas de minhas amigas também postaram fotos totalmente ao contrário do que seria “bela, recatada e do lar”, embora eu nao veja isso como uma campanha feminista e sim como uma forma de deboche coletivo à Veja.
A revista tem sem histórico golpista e sempre apoiou medidas que desfavorecem as mulheres, a revolta da grande parte das mulheres pela materia foi justamente por isso. Ao tratarem a mulher de temer como um exemplo a ser seguido e muitas vezes difamar e xingar a presidente Dilma sem o minimo de escrúpulos. Eu particularmente achei um lixo essa reportagem”.

 

 

tays
Tays Villaca. Bela, publicitária, cantora, engajada com lutas por igualdade de gênero

“Acho que a revista Veja quis desmoralizar a Presidenta Dilma e todas as mulheres que ocupam um cargo de poder ou até mesmo aquelas que não seguem o padrão que ela quis estipular.
Em nenhum momento quero atacar a imagem da Marcela, mulher do Temer, mas sim da manipulação que a revista imprime. Respeito a escolha daquelas que querem e se sentem confortáveis nesse rótulo. Mas também acredito que há mulheres recatadas e do lar ( pq belas todas são ) que são oprimidas pelos machos e por si mesma para se enquadrarem nesse conceito. Que essa manifestação sirva como enfrentamento a essa revista babaca, e também para reflexão daquelas que aceitam essa redoma”.

 

Cássia Ricardo. Bela, arquiteta e urbanista, viajante, esposa, motociclista, defensora dos animais.

“Todos temos a independência de ser como e o que quisermos ser. E esse não é um discurso que cabe apenas para mulheres, mas para todos os indivíduos. Não concordo com rótulos de espécie alguma.
Se uma pessoa se sente feliz e realizada sendo “recatada e do lar”, que continue sendo. O que não concordo é ser colocado, subjetivamente, como o padrão aceitável de mulher na sociedade.”

 

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Rejane Martins. Bela, jornalista, escritora, premiada, mãe, esposa e também ‘do lar’

Texto infantil, patético e estereotipado. Ao exaltar a “Mar” como padrão de esposa e mulher ideal, evidencia-se a mulher-sombra, sem identidade ou expressão alguma, ou seja, uma antítese da mulher forte, da mulher-individualidade, capaz de compreender-se a si mesma e assumir papéis de liderança sem qualquer julgamento.
Nas entrelinhas do texto, muito preconceito e conservadorismo: a mulher ideal usa vestidos na altura do joelho, não trabalha fora, vai ao dermatologista duas vezes por semana e dedica-se ao marido e ao filho Michelzinho. Família fotográfica linda e perfeita que mexe com o imaginário popular. Quantas não querem ter a mesma sorte de Marcela?
Prefiro não acreditar nisso como um desejo latente nas mulheres da pós-modernidade, pois não vejo sorte alguma! É um retrocesso. É o feminino retirado da esfera pública para viver os dramas da dominação privada. Fica clara uma opressão, mais sutil, porém não menos perigosa, pois ainda submete a mulher a costumes, crenças e convenções sociais, prisioneira de si mesma. Quanto a sorte de Temer, eis aí os segredos do mundo masculino!

 

 

mary

Mary Ramos. Bela, jornalista, militante da CTB e UBM, mãe, esposa, ‘do lar’.

Postei a foto pq acredito que também é um grande golpe com todas a mulheres, afinal a publicação da revista nada mais do que fragiliza o discurso de empoderamento das mulheres, que fazem lutas com as minorias, estudantes, negros e mulheres.
A revista trata do assunto com pouco caso, em relação as lutas que a presidente Dilma tem ao longo de sua militância e também enquanto presidenta, primeira mulher eleita democraticamente, pelo povo. Mulher que esteve em lutas de ruas, atos e mobilizações em favor dos direitos dos trabalhadores. A revista Veja nada mais quis do que trazer um discurso que fragiliza os direitos da mulher. E mais, a matéria promove o machismo vergonhoso e revoltante, querendo impor uma mulher Barbie que apenas nos permita laços no cabelo, bolsa cara. convites a restaurantes e espaços que os homens nos permitam. Sem lutas, sem voz, de poucas vontades, de pouco discurso sobre seu sexo, seu trabalho, sua família, seu estudo. É isso, quero ter voz, ser bela e recatada, do lar, do bar, do trabalho e não ser Barbie!!!!!

 

 

Ana Claudia
Ana Cláudia Zanella. Bela, empresária, jornalista, mãe, protetora de animais

“Eu não acho que ser ‘do lar’ é denegrir a imagem da mulher que acho muito bonito a mulher conseguir manter essa jornada quádrupla, trabalhar, consegue dinheiro, vai fazer compra, faz comida para as crianças, cuida do marido e de tudo.
Sobre a Marcela, não acredito que ela seja mulher do lar, deve ter uns 450 mil empregados. E também acredito que a vida dela não seja nenhum comercial de margarina. Deve ter muita linguiça nesse pão com margarina.
A gente tem que viver a vida que a gente tem, sem ter que ser tão recatada. Podemos falar palavrão que a gente quer falar, dar a gargalhada que a gente quer dar, sem ter vulgaridade, sem fazer coisa errada, sem ser sem vergonha. Continuar respeitando seu marido, sua família, seus filhos, mesmo sem ser recatada, sem ser pura, virgem e fofa.
Tudo isso sendo bela, mesmo sem ser tão novinha, sem ser tão menininha. Somos belas da nossa forma.
Não precisa ser esteticamente perfeita. Somos belas cuidando dos filhos, dos cachorros. Eu tenho nove animais (fora os abandonados que ajudo a cuidar vendendo rifa e fazendo campanhas de adoção), tenho meu trabalho, meus filhos, meu cachorros, minha casa e cuido de tudo isso com excelência. Tenho muito orgulho da mulher que sou. Mesmo não sendo tão ‘bela, recatada, do lar’ e perfeita como ela [Marcela Temer] tenho muito orgulho da mulher que me tornei e não trocaria minha vida pela dela”.

 

maiara

Maiara Bastianello. Bela, jornalista, esposa, ‘mãe de gatos’ e dona de casa.

Em primeiro lugar, é muito desanimador ver que, em um momento em que há assuntos de extrema importância a serem discutidos, a pauta seja esse perfil anos 20 da esposa 40 anos mais jovem de um político que é um dos pivôs dessa época histórica. Depois, eu, como mulher, me sinto ultrajada ao ver que adjetivos como “bela”, “recatada” e “do lar” sejam expostos como as grandes qualidades que uma mulher deve ter. Estamos em 2016, lutamos por direitos iguais e ainda temos que nos deparar com essa deturpação de valores. Nada contra a quem é, nem um pouco! o problema é quando parece que só essas mulheres têm valor. Por que precisamos ser recatadas para ter sucesso ou ganhar destaque na sociedade? Me pergunto o que seria se a presidente tivesse um marido bem mais jovem que fosse classificado dessa forma. Isso é um desserviço quando lutamos tanto pra garantir o direito de não sermos meros objetos.

2 comments

  1. Muito bom ver essas mulheres de Cascavel sendo forte e mostrando a que vieram! Acredito mais ainda na beleza dessas guerreiras! Parafraseando os pedreiros de plantão: ISSO É QUE MULHER!!!
    Desculpe não poder mandar um texto bem legal, mas acredito que deu para passar minha opinião só com nossa conversa. Ficou show!

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