Artigo exclusivo: A médica vereadora

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048 Simioni, Elisa Vieira

Alceu A. Sperança – escritor alceusperanca@ig.com.br

A médica Elisa Aparecida Vieira Simioni não foi apenas a primeira profissional de saúde de nível superior a atuar na região de Cascavel. Ela também foi a primeira mulher a assumir a linha de frente da luta política, a primeira vereadora cascavelense e só não chegou a ser a primeira prefeita de Cascavel porque a discriminação reinante na década de 1960 — aliás, ainda hoje reinante — estrangulava os partidos políticos e alijava a mulher de uma candidatura, principalmente porque havia apenas dois partidos: Arena e MDB.

Elisa se elegeu para a Câmara em 1968, pelo MDB com 659 votos, fruto de suas atividades como ginecologista, atendendo gratuitamente a mulheres carentes do meio rural.   Lutava incansavelmente contra os interesses que tentavam contrariar sua defesa da mulher e dos carentes exercida, sobretudo, por uma dedicação exclusiva à profissão e à caridade.

Ela detestava a mania dos vereadores de usar a tribuna da Câmara para mandar abraços aos amigos e fazer homenagens pessoais a sócios, compadres e parentes. Teve um atrito com o vereador Luiz Picoli na sessão de 6 de março de 1969, quando censurou o presidente da Câmara por usar a palavra para elogiar seu amigo, o advogado, ex-vereador e dono da Rádio Colmeia, José Bernardo Bertoli.

Filha de Maria e Luís Vieira, Elisa Aparecida Vieira nasceu em 25 de setembro de 1933 em Itapetininga (SP). Formou-se pela Escola de Medicina de São Paulo (ginecologia) e depois de uma rápida incursão pela capital paranaense, optou por se internar no desassistido interior do Estado, vindo a se instalar em Cascavel no período mais crítico da década de 1960, quando havia o predomínio dos jagunços apadrinhados pelos ditadores da época.

 Favelados

Casada com o empresário Eusébio Simioni, que teve uma participação de destaque nas indústrias madeireira e cerâmica, Elisa teve com ele três filhos: Luiz Eduardo, Sérgio Antônio (o escritor Tenn Simioni) e Eusébio Jr. Já instalada em Cascavel, Elisa começou, como ginecologista, a prestar um trabalho pioneiro na área de assistência social, que anteriormente era exercido apenas por clínicos gerais, parteiras e “nonas”, mulheres idosas e experientes que aconselhavam as mais jovens, nem sempre da maneira mais adequada.

Em seu consultório instalado nos altos da antiga Farmácia Santa Cruz (hoje, FarmaRede), na esquina Nordeste da rua Carlos de Carvalho com a avenida Brasil, hoje Calçadão, Elisa Simioni prestava atendimento principalmente às mulheres e crianças.

Vera Picksius, que trabalhou como enfermeira em seu consultório, conta que a atuação de Elisa não se limitava ao consultório instalado no centro da cidade: ela atendia gratuitamente aos menores internos no Recanto da Criança e pessoas carentes, sobretudo mulheres e crianças, das favelas dos bairros mais antigos da cidade.

 

 Loteamento

Esse atendimento gratuito, de ordem pessoal, conduziu Elisa imediatamente à vida pública. Foi chamada a dirigir o Ambulatório Municipal, pertencente à Prefeitura, e montou uma farmácia pública à base de amostras grátis das indústrias. Como nem sempre havia remédios em quantidade e títulos suficientes na farmacinha municipal, Elisa mandava comprá-los na Farmácia Santa Cruz, de seus amigos Gilberto e Yeda Baggio Mayer, aos quais pagava do próprio bolso.

A família morava na rua Paraná, próximo ao Supermercado Muffato e mais tarde se mudou para as cercanias do Hotel Copas Verdes. Tinham loteamento próximo à Vila Cancelli e os compradores de terrenos ganhavam de “brinde” atendimento médico gratuito para a família. Mais: não cobrava consultas a não ser dentro de sua especialidade — a ginecologia — e mesmo assim apenas de famílias que podiam pagar.

 

Ginecologista, mas…

Seu grande amigo em Cascavel foi o ex-vereador Valmor Beux. Poucas horas antes de ser assassinado no interior de sua casa, Beux recordou como era a convivência com Elisa. Para Beux, esse tipo de trabalho era impossível de ser mantido, tal o número de  crianças e de indigentes, tanto mulheres quanto homens, que procuravam ajuda. Ela não cobrava consultas de homens e crianças, apenas as consultas de sua especialidade e quando as mulheres não eram desprovidas de recursos.

Era uma das pessoas mais queridas da cidade e devido a isso foi chamada pelo MDB, o partido da oposição à ditadura militar, para concorrer a uma cadeira na Câmara Municipal, numa época em que até homens de reconhecida coragem temiam contrariar os poderosos de plantão.

Tinha uma candidatura praticamente assegurada para concorrer à Prefeitura nas eleições de 1968, mas foi preterida e levada a concorrer apenas à Câmara de Vereadores. Elegeu-se, assim, com a segunda maior votação do pleito, tornando-se a primeira mulher a assumir mandato público na cidade e no curso da legislatura sendo eleita vice-presidente do Legislativo.

 

Tragédia pessoal

Apesar de toda essa dedicação à vida comunitária, Elisa apenas cumpriu seu mandato e se desligou da vida pública, decepcionada com as limitações impostas pelo interregno ditatorial. Seu desânimo se agravou com o acidente que vitimou o marido Eusébio, morto na explosão da caldeira de sua cerâmica, nos arredores de Toledo.

A tristeza pela morte do marido e o delicado estado de saúde da mãe a levaram, dois anos após a tragédia, a retornar a São Paulo, onde passou a clinicar na rua Trajano Dutra.

 

Enfermeira e parceira

Levada para trabalhar com Elisa pela enfermeira Vera Picksius, Jorgina Rodrigues foi trabalhar com a médica como recepcionista. Jorgina depois foi nomeada chefe regional do IPE.

Além de recepcionista, Jorgina era cabo-eleitoral de Elisa em época de campanha. Acompanhava-a na cidade e no interior, levando as propostas da médica, a exemplo de seus projetos, que em sua maioria eram voltados para as questões de saúde.

 

Ensino superior

Elisa Vieira Simioni também está na origem do movimento que trouxe o ensino superior ao Oeste do Paraná. Em 10 de junho de 1969, já na segunda gestão do prefeito Octacílio Mion, o vereador Luiz Picoli propôs ao presidente da Câmara, Horalino Bilibio, a constituição de uma comissão para reivindicar a criação da faculdade ao secretário da Educação, Cândido Martins de Oliveira, que em breve iria visitar a região.

O grupo era formado, além do próprio Picoli, por José de Oliveira e Elisa Vieira Simioni. Eles entregaram o pedido ao secretário Candinho durante o ato de inauguração do Colégio Wilson Joffre, no dia 13 de junho de 1969, anexando os dados sobre a realidade local coligidos previamente pelos vereadores.

 

1 Tenn, livro Piloto Ianomâmi

 

Tenn Simioni, filho de Elisa e Eusébio Simioni, autor dos livros Piloto Ianomâmi e Fênin-Aton.

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1 comment

  1. Prezada Lais:
    Somente agora tomei conhecimento de vossa matéria a respeito de minha mãezinha bem como a citação a meu pai e minha pessoa. Grato desde já pela lembrança bem como a exatidão dos relatos apresentados. Atualmente resido em Florianópolis porém vez ou outra ainda vou à nossa sempre inesquecível Cascavel. Quem sabe em uma dessas próximas idas possamos combinar um café em companhia do Alceu Sperança. Um abraço e fique com Deus!

    Cordialmente,
    Sergio “Tenn” Simioni

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