Bibs: Uma Biblioteca de Sonhos

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Fotos: Hermínio Jr Fotografia e Bruna Tonet Fotografia

Bibliotecas, por regra, estão associadas à expansão da mente, do conhecimento intelectual, um lugar de ‘nerd’, mas que deveria ser lugar de todos.

Curiosamente, há dois anos Cascavel tem um tipo bastante peculiar de Biblioteca que, digamos, foge dessa forma. Digo mais, criou uma identidade própria e trouxe muitos desses aspectos elementares do conhecimento em forma de balada.

A Biblioteca ou Bibs, para os íntimos, mistura elementos que Cascavel pouco viu antes dela. Situada na Rua Maranhão, quase esquina com a Avenida Carlos Gomes, a casa encontrou o viés que une gays, lésbicas, simpatizantes, héteros, nerds, pessoas livres, política, drinks descolados, rodadas de catuaba por conta da casa, gibis e música de todos os tipos.

Sem camarote ou área VIP, ninguém paga mais caro que ninguém no ingresso. O conceito foi bom e o negócio deu certo. Tanto que a Bibs recebe em média 250 pessoas por noite, emprega 12 pessoas, já recebeu duas reformas e ganhou recentemente uma filial em Foz do Iguaçu – a inauguração foi no início de abril.

O jovem arquiteto Fernando Melchior, de 26 anos, é o idealizador da casa junto com outras pessoas que ele faz questão de mencionar: Carol, Simone e Felipe.

Esta blogueira conheceu pessoalmente tanto Fernando quanto a Casa na véspera da festa em homenagem ao premiado cineasta Tim Burton – muito conhecido por dirigir filmes como Edward Mãos de Tesoura, remake da Fantástica Fábrica de Chocolate e Alice no País das Maravilhas. O tema das baladas, aliás, é um capítulo à parte que você lê mais adiante.

Só a sacada dos temas das festas, para uma cidade como Cascavel, já soa ‘surreal’ analisando a história da sua vida noturna. Os bons baladeiros nascidos entre o fim da década de 1980 até meados da década de 1990 compreendem bem o frescor da proposta. Menos de uma década atrás, as opções restringiam-se ao Square Bar (hoje Ministtério), Bielle Club, Cowboy Sallon, à saudosa Mega Fantasy, mais recentemente ao Hooligans – que mantém um ótimo nível de atrações – e pouca coisa na vibe alternativa.

Faltava alguma coisa para jovens que rejeitavam o que a noite cascavelense oferecia.

“Não é só uma balada. É um lugar de reconhecimento. Não é uma balada GLS, não é um Pub. Aqui as pessoas são livres. É um bar sem preconceitos”, descreveu Fernando.

Cheguei à Bibs era quase meia-noite. A entrada já revela o ar diferente do lugar: a drag Sophia recepciona o público. O próprio Fernando é uma ‘atração’ à parte – praticamente todos o conhecem e a entrevista foi interrompida várias vezes pelos clientes que chegavam para cumprimentá-lo.

Dentro, já nas primeiras passadas, uma mesa de sinuca em um ambiente como uma grande tabela periódica, mas não qualquer tabela. Como estamos em uma Biblioteca, a tabela é literária.

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Cada elemento é um livro, com a data da publicação, e as abreviaturas, são iniciais do autor da obra. Entre os elementos: ML (Negrinha, 1920); DT (O Vampiro de Curitiba, 1965); CA (Morangos Mofados, 1982).

Mais adiante, um segundo ambiente mais escuro, com luzes de neon, onde a galera se joga na dança.

De um lado, a célebre parede de gibis (cenário de muitas selfies que você já deve ter visto em seu Facebook) e, de outro, paredes negras, mensagens dos baladeiros – muitas delas feitas já com a mente ~~para lá de Bangladesh~~. A propósito, a parede de gibis é o lugar preferido do Fernando.

Do lado de fora, as mesas ao ar livre são a opção para quem não quer tanta ‘muvuca’ e prefere ar fresco. Ali também estava a liberdade que Fernando defende: na mesa ao lado um grupo empolgado fazia coro de uma música de Wesley Safadão.

A construção da Biblioteca

Antes de sonhar com a Bibs, Fernando Melchior trabalhava na noite.

“Em 2008, trabalhei no Square Bar. Aprendi muita coisa, mas eu sempre buscava algo novo. Entrar no ramo da balada GLS exigia também um padrão de atendimento e fui treinando. E em 2014 apareceu a oportunidade de abrir o Biblioteca”.

Inaugurado em Janeiro de 2014, o Biblioteca é resultado de uma construção de conceitos, de formação política, de experiências na noite de todos os envolvidos e de muita criatividade.

“Sem sombra de dúvida, o Biblioteca é uma construção de várias peças, de várias pessoas, família, amigos. Cada coisa aqui tem um porquê. É algo muito complexo e que envolve desconstrução de valores e de coisas que estão dentro de você.  Um exemplo disso é a festa RuPaul Drag Bibs. Na primeira edição da festa, tinha duas drags, depois foram quatro drags inscritas e hoje são muitas. Sem contar nos outros temas de eventos que foram obtendo respeito e espaço na cena”.

Essa conceituação da balada e da empresa permeou também aspectos pessoais de Fernando. Ele mesmo admite que antes da Bibs era uma pessoa completamente diferente do que é hoje. O estudo e a busca do que ele queria trouxe a transformação.

“Eu era de direita, fascista, alienado. Quando eu contratei uma agência para fazer pesquisa, vi o quanto havia de lutas. Fui estudar feminismo, direitos e de formação. Sou da UJS e filiado ao PCdoB. Aprendi que por trás de tudo o que eu pretendia tinha uma questão política e, para passar a mensagem que eu queria, tinha que entender o que ela significa”.

O significado veio e está impresso nos detalhes da Bibs. Quando eu disse no início que também existe uma essência política na casa, um de seus elementos aparece em uma pequena lousa que fica no bar. As mensagens variam, mas, em geral, têm um cunho de protesto, como neste dia:

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Suzane da Silva é uma estudante de Medicina, negra, que conseguiu ter acesso à universidade por meio do Prouni e que mês passado foi alvo de ataques racistas nas redes sociais.

Ao longo dos dois anos de Biblioteca em Cascavel, Fernando cita três momentos de grande satisfação.

O primeiro foi a comemoração de um ano da casa, quando ele trouxe a Webcelebridade Inês Brasil.

O segundo momento foi a festa do segundo ano de aniversário, realizada na Bielle Club. “A meta era trazer essa banda conhecida nacionalmente. O show da Banda UÓ teve público de 800 pessoas e isso foi um sucesso enorme, pela proposta e pelo local, já que a Bielle é uma casa consolidada e conceituada na cidade. Foi fantástico”.

O terceiro momento foi a segunda reforma feita na casa.

“Reformamos para reabrir no carnaval e conseguimos deixar bem próximo daquilo que eu sonhava, mas ainda falta muito”, completa Fernando.

A extensão para Biblioteca Foz foi outra ousadia. Nos mesmos moldes, o formato de balada está ganhando espaço na Fronteira.

“Sou de Foz e sempre quis abrir algo assim lá. Eu e minha sócia Rubia apostamos”.

Agradecimentos

Durante a entrevista, Fernando Melchior fez questão de nominar algumas pessoas a quem ele oferece sua gratidão envolvendo o Biblioteca. Além da Carol, da Simone e do Felipe – mencionados no início da matéria – ele lista:

“Rúbia, que é minha sócia, o pessoal do Hooligans, o Baby, a Deise e o Otávio. Da Bielle, o Marcelo, a Diva e a Juliana. E a família Pasini, Dani e Débora, ambas que dirigiam o Square Bar”.

Atrações e festas temáticas

Os shows da Bibs variam entre festas temáticas com os DJs da casa e a apresentação de drags e DJs conhecidos, principalmente da internet.

Entre as webcelebridades mais conhecidas que já estiveram no local, estão Gina Indelicada, Irmã Zuleide, Mc Mayara, Inês Brasil, a cover oficial do Brasil da pop Lady Gaga, Penelopy Jean, entre outros. As divas do pop Rihanna, Beyoncé e Britney Spears também permeiam os temas recorrentes das noites da Bibs.

Pessoalmente, a criatividade das festas temáticas são um caso à parte e digno de aplauso tanto pela qualidade quanto pela produção. No dia da festa do Tim Burton, acompanhei a preparação dos DJs com fantasias dos personagens do cineasta: Noiva Cadáver, Rainha Branca, Beetlejuice, Coringa e Jack.

“Uma vez por mês nos reunimos, eu e 15 produtores, entre DJs e agência, e discutimos o que fazer, buscando sempre algo novo, pensando em orçamento e na atração. Foi assim com a festa do Tim Burton. A promoter deu a ideia, vimos o que ela precisava, um maquiador, costureira, tecidos para as fantasias. São coisas que podem dar supercerto, ou supererrado, mas o negócio é apostar”.

 

Os temas são os mais diversos. Listei alguns:

Mágico de Oz

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Meninas Superpoderosas

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Festa da Toalha (Dia do Orgulho Nerd, já com data marcada para 2016)

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Orange is The New Black

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Sense8

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RuPaul

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Halloween

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Rock Junino

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Entre outros concursos de Cosplay e dublagens, o Biblioteca ainda apoia eventos sociais como a Mostra de Cinema da Diversidade Sexual de Cascavel e Parada da Diversidade de Cascavel.

Para finalizar, o Biblioteca constrói as melhores histórias, capítulos, palavras com jogos de metáforas, seja na linguagem culta ou coloquial, seja poemas ou redações, seja livre.

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